Limões Italianos Para os Olhos

Postado por NaNa Caê quinta-feira, 18 de agosto de 2011 22:46:00

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Escrevo páginas diárias pensando o que você acharia, imagino você dizendo ‘mas que genial’, só passo a folha. Mentalizar não mata ninguém, só corrói por dentro, pelos lados até emagrecer de tantas noites de insônia. Preocupação, saudade, arrependimento, todos os problemas agora são insônia. Tenho dó, dela, da doença. Assim como às vezes tenho de mim e de você, nos mutilando internamente por aí. Por dentro, pelos lados até fingir esquecer. Não há o que esperar, não existe data, apenas ponto de partida, não de chegada, o que diríamos de despedidas, o percurso não existe e a gente fica nesse buraco, meio que encurralado enquanto a água vai subindo e os peixes nos beliscando. De pedacinho em pedacinho vamos sofrendo, sentindo cada ferida que eles criam, abrem novamente e comem mais uma vez. E eles vão se reproduzindo. Comendo-nos de boca cheia feito miolo fofinho de pão. Nós não nos comemos nunca. Só em pensamento, telepatia não é nada sexual, não mostra o quanto se pode arranhar até os poros saltarem e surgirem algumas gotinhas de sangue pra no dia seguinte a gente olhar, lembrar e sorrir. Não tenho marcas suas no meu corpo, nunca tive você em mim, não tenho você em nenhum lugar. Só dentro do aquário que é minha cabeça. Água salgada, cheia de tubarões que você foge e nem sabe nadar. Mergulha tanto que na sua boca já tem o meu gosto, desgosto esse que é se afogar. Pela literatura te construo e consumo, frases e metáforas que nos inflam já que não se sabe definir o quão é amor. Admiração? Você admira quem aguenta distante. Você não imagina noites seguidas com Fernando Pessoa, Caio Fernando Abreu ou Florbela, não os beijando, sentindo tudo o que da pra ver e pegar, ou pelo menos supor. Você não espera ligações de literatos, você simplesmente não os espera bater na sua porta, eles já morreram, você continua ali, mesmo que distante. São listas demais de reprodução compostas por poucas músicas, repetindo sempre os mesmos sonhos e poesias reescritas com palavras diferentes, porém com o mesmo significado. Limões. Nas pálpebras do coração, espero que elas comecem logo a arder e eu seja obrigada a fechar os olhos. Sangue já tem por tanta parte ali. Será que vai parecer esquisito derreter sua imagem e fazer vitamina pra eu não desmaiar, me deixar em pé, pelo menos mais alguns meses enquanto ainda consigo dormir sem você? Quando é só amor e sexo envolvido é mais fácil, mas literatura te deixa mal em momentos em que não deveria ficar. Lembra de trechos da sua vida como se fosse poesia simbolista. Tem todo um pessimismo realista a mais que enquanto você vai atravessando avenidas te da tapinhas por trás, alguns fortes chegando a te jogar em frente a carros em movimento. Não se sabe quantas chances a si mesmo ainda serão dadas, inventa círculos que te prendem na cidade, não deixa chegar perto de aviões, passagens em promoção. ‘Ta caro, dessa vez não da’. A não realização você suporta como se fossem cafunés, apesar de que agora parecem mais ganchos, não durmo por medo desse aço frio entrar de uma só vez no meu cérebro e o congelar feito excesso de sorvete. Coração é quente, mas não aquece o corpo, muito menos revive almas inteiras. Almas realmente morrem ou apenas vão? Não faço sentido com nada meu, meio confuso, mas é bem assim mesmo, não me encaixo nos meus próprios pedaços.

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[Ouvindo: Kate Nash - Foundations]

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Sirva-se

Postado por NaNa Caê quinta-feira, 4 de agosto de 2011 03:46:00

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Ainda existem armadilhas de alumínio em volta do seu cérebro que você coloca no microondas pra cozinhar:

- Está quente amor?

- O sexo ou suas paixões que esconde em baixo da escada e vai lá brincar enquanto estou dormindo?

Fatiadas expirações de ambições já estão à mesa, como filés ao molho de subsequentes alucinações, salgadas demais. 

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[Ouvindo:Portishead - Acid jazz and trip hop]

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Quatro Súbitos

Postado por NaNa Caê segunda-feira, 1 de agosto de 2011 21:47:00

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Eles se despem ondulando desesperos por entre buracos na estrada, tapados com terra-sangue de crianças desnutridas de amor.

Você desafortunada repousa em pianos, como se cada arpejo morresse depois dos toques terríveis de seus dedos.

Eu ainda temo, porque o que passa é sempre literatura que não da pra vender, então as jogo a frente, pra ter onde pisar e não cair em abismos.

Ela pergunta o que estou fazendo respirando, como se fosse tomar por charme o seu próprio ar.

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[Ouvindo: Radiohead - Jigsaw Falling Into Place]

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